Clave de Clóvis / Baleia / Black Drawing Chalks

Surbesivo e Nelsonrodrigueando a Música Popular Brasileira / Quebra Azul / Life is a Big Holiday for Us adicionados à playlist!

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O Rock tem dono

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A ideia era que fosse apenas uma entrevista. Uma entrevista legal, claro, afinal são 3 estudantes da ECA que tem um programa de rock na USP FM, no mínimo um papo divertido, descompromissado e com muita informação. Jota, Cauê e Juninho (eu poderia usar o nome completo de cada um, mas não estaria de acordo com o contexto rock´n roll das horas que passamos juntos) começaram o papo de forma até tímida, mas descontraída. Jota é o falante, fã de Arctic Monkeys, uma metralhadora de informação musical contemporânea, mas sem deixar de lado os clássicos, tem uma opinião muito bem definida sobre a atual condição do rock brasileiro (“há uma cena fantástica, mas ela não sabe para onde ir”), um apresentador que direciona e dialoga, sem receio de dizer o que pensa e, mais importante, sem medo de rever sua opinião em um debate. Cauê, também apresentador do Rock Sem Dono parecia meio desconfiado a princípio, mas foi se soltando aos poucos. Muse, dedicação com a faculdade, preocupação com horários, responsabilidade, o papo até enveredou para como a mídia de hoje é tacanha. Se deixar, o papo vai longe. O terceiro elemento dessa sopa toda é Juninho, o mais introvertido da trupe, mas nem por isso menos importante. Vestindo sua camiseta do The Who, desvia  quando pergunto se ele também apresenta. “Não, minha voz fica horrível e eu falo muito baixo”. Jota complementa: “ele não pode ficar perto do microfone, não tem controle. Fala o que vem na cabeça”. Saí desse papo muito curioso sobre como seria um programa com o Juninho apresentando. Pergunto para todos se houve algum caso inusitado durante os 63 programas que eles fizeram juntos. “Uma das coisas mais rock´n roll que já vimos foi durante um show promovido pelo programa em que um integrante de uma banda ficou segurando o bumbo estourado da outra. O cara lá no chão, segurando o bumbo estourado e curtindo o show! Tem coisa mais rock´n roll do que isso?”. Acho que todo o conceito de rock´n roll está expresso nesse sentimento. Rock é improviso e culhão.

rock01Diferente do que eu imaginava, preferi desenvolver esse texto baseado na experiência da gravação do programa, em pleno feriado da Consciência Negra. O velho pergunta/resposta não funciona para expressar a insanidade que foram estas quase 7 horas de gravação. Entrevista feita, gravador desligado, papo fluiu e dava mais 60 minutos fácil. Responsabilidades latentes e ajeitar o estúdio da ECA para receber a banda convidada, afinal o Rock Sem Dono faz o som ao vivo, do jeito que deve ser feito. Organização feita, indicações de bandas para o intervalo feitas por mim (The Baggios, Clave de Clóvis), tudo correndo conforme deveria. Até que Juninho, o calmo, identifica a ausência de praticamente todos os microfones do estúdio. Mais ainda: “onde estão os tripés?”. O caos está instaurado, mas esse é só começo. Os caras falam entre si (“tenho um microfone aqui, tem outro em algum outro lugar…”), verbalizam, amaldiçoam os possíveis boicotes e a filhadaputagem alheia. E o ar oscilando entre 31 e 32 graus. Condicionadamente quebrado.

– “Precisamos de 4 microfones, um pra isso, outro pra isso..”.

– “4? Precisamos de, no mínimo, 6.”

– “Ué, pra quê? Esse vai nisso, esse vai naquilo e pronto…”

– “Cara, a banda tem 7 integrantes.”

A banda convidada da noite foi a fabulosa Meia Dúzia de 3 ou 4, que faz o som de uma orquestra irônica, politizada e que tem a ousadia de rir de si própria o tempo todo, com graça e respeito. Desconheço outra banda da atualidade com esse grau de qualidade. O segundo disco, O Fim Está Próspero, é uma alegoria estapafúrdia do final dos tempos, com muita poesia, alegria, sopapos e sarcasmo atualizado. Fiquei para ver como se comportavam os 7 integrantes da banda que fez o melhor disco de 2012, ao vivo.

– “7? Cê tá de brincadeira! Fudeu”!

Desmarca. Os caras já estão na USP fazendo umas fotos. Mas não tem jeito de gravar. E se a gente fizer isso e isso e isso? Não vai dar. Dá, sim! Como gravar a bateria e, porra, tem percussão, porra. Desmarca. Caraio! E se a gente fizer assim? Desmarca, melhor. Caras, falem com a banda. Banda é pau pra toda obra. Melhor coisa é falar com os caras. Porra, caralho, que foda. Dia de merda. Desmarca. Fala com os caras. Cerveja. Desmarca porra nenhuma, vamos fazer essa merda. Fala com a banda. Olha eles chegando aí.

– “Foda-se. A gente faz com o que tem aí. Um segura o microfone do outro, a gente tem uns aqui no carro. Quem me ajuda a descarregar o carro? Vambora fazer isso aí.”

Todo mundo retirando equipamento dos carros. Sobe escada, vira aqui, vira ali. Ar condicionado quebrado, só pra lembrar.

– “Porra, sem microfone eu aguento, mas ficar nesse calor vai ser foda. E a fome? Tem algum lugar pra comer aqui perto? Tem não? Fome pra caraca. E esse pacote de bolacha vazio? Tem mais, só que cheio?”

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Isso eram umas 19h quando a banda adentrou o estúdio. Enquanto os caras desempacotam, correm Jota e Cauê para gravar a introdução. Transformam a raiva em um descaso quase juvenil, a velha teen angst verbalizada no desabafo do microfone. Sarcasmo à parte, acertam na terceira vez e parecem até mais leves. Ainda putos, mas leves. Juninho está na mesa, operando e organizando o que falta do programa. “Que dia foda” é quase um mantra. Entrevista inicial foi fácil, os caras estão juntos há um bom tempo. Tem um processo criativo interessantíssimo de montar uma base e todos os integrantes vão contribuindo online, via skype ou qualquer coisa que o valha. “É um processo quase kármico”. “E as participações especiais desse novo disco? De Tom Zé, passando por André Abujamra, chegando até no Arrigo Barnabé?”. “O mérito é da cara de pau da gente. De mais ninguém”. Rock´n roll puro e sem intermediários. Hora de tocar. E dá-lhe “O Ser Humano é muito bobo”. Lero-Lero.

A banda participa das soluções. “Já estamos aqui, vamos fazer direito”. Um aqui, outro ali. Junta todo mundo nesse canto. Pronto pra primeira? Testa esses mics aí. E a fome batendo forte. Primeira música foi na terceira tentativa. Ponto pros Sem Dono. Se revezam na mesa e nos cabos dos microfones. Acerta ali, erra ali. “Quero só que esse dia acabe”. Esse foi o Jota falando, mas era o pensamento de todos ali dentro daquele inferno em forma de estúdio.

Com a banda no pique, vamos pra segunda. Outro microfone com problema, troca o 1, troca o 2, muda o 3. Testa. Acerta. Erra. Revezamento 3 por 3 no computador, no estúdio, na troca dos cabos. Chegou num ponto em que não dava mais para controlar qual cabo estava ligado em qual número.”Funcionou!Tá em qual número? Foda-se e liga essa merda pra gente gravar essa porra”. “Qual vai agora?”. “Deus me livre e guarde de você”. “E de nós, os desorganizados do Rock Sem Dono” foi a piada interna. Essa virou até vídeo. Isso eram quase 23h.  A terceira, “Caguei pra você”, mostra toda a dimensão da banda: estrutura, coesão e musicalidade impecável. Sobrou até espaço para mais uma: “Esquecimento Global”.  E tudo isso com uma fome gigantesca. Já passava da meia noite. Despedidas rápidas. Gente espetacular.

O programa foi ao ar com uma semana de atraso por um erro de programação da USP (obviamente a epopeia trágica só seria coroada com um erro desse porte, não é?) e pode ser ouvido aqui. Para mim, o que restou foi uma das experiências mais gratificantes da minha vida. Por mais exagerado que possa parecer, foram algumas horas realmente insanas para estes 3 caras, Jota, Cauê e Juninho, transpondo cada obstáculo com criatividade, independência e muita fúria. Mas o resultado de toda essa catarse não podia ser melhor.

E se isso não for rock´n roll, eu não sei o que é.

 

Ouça a entrevista com Meia Dúzia de 3 ou 4 clicando aqui.

O Rock Sem Dono está na programação da Rádio USP (93,7 MHz) todo domingo, às 18h.

Os melhores discos de 2013

Depois de quase 200 discos nacionais (a maioria, independentes) ouvidos durante o ano de 2013, fica difícil escolher somente 10, mas vamos lá.

Estes 10 foram selecionados levando em conta vários aspectos, entre eles aspectos técnicos/visuais do CD, conteúdo das letras (algo que está muito difícil de encontrar nos dias de hoje), entre outras coisas mas, principalmente, são aqueles que melhor conseguiram expressar uma identidade musical. Atualmente, temos muito mais emuladores sonoros do que bandas em si, infelizmente.

Enfim, segue a lista. Sem ordem de preferência. São apenas os 10 melhores deste ano.

The Baggios / Sina

The Baggios / Sina

Difícil não colocar esse disco entre os melhores do ano passado. Tecnicamente impecável, visualmente sensacional e com uma musicalidade única, o duo de Sergipe conseguiu unir rock clássico, guitarras e bateria frenéticas, e muita referência nordestina. Visite o site.

Apanhador Só

Apanhador Só / Antes que tu conte outra

Depois de um projeto bem sucedido via Catarse, o segundo disco da banda do Rio Grande do Sul tem elementos para agradar a todos, mesmo fuçando bastante com a experimentação. Visite o site.

meiaduzia

Meia Dúzia de 3 ou 4 / O fim está próspero

Apesar de ter sido lançado no final de 2012, vale a pena incluir esse projeto entre os melhores. De sonoridade impecável, a banda ainda teve tempo de bolar um projeto inusitado para este segundo disco, lançando uma música (com clipe) durante cada mês de 2012, além de abrir espaço para colaboração de fãs, participação de grandes compositores, como Tom Zé, Maurício Pereira, Arrigo Barnabé, entre outras coisas. Visite o Site.

sombraSombra / Fantástico Mundo Popular

Em 99% das listas deste ano você vai encontrar o excelente CD novo do Emicida, mas eu simpatizei muito mais com o do Sombra. Velocidade na língua, popular nas letras e na cultura. Visite o site.

daniel zé memorias meio inventadas

Daniel Zé / Memórias Meio Inventadas

Quietinho na divulgação, pelo menos por enquanto, esse é um disco pra ouvir em qualquer lugar, a qualquer momento. Escrevi mais sobre ele aqui. Visite o Site.

camarones

Camarones Orquestra Guitarrística / O curioso caso da música invisível

Em seu terceiro disco, a banda potiguar continua seu projeto idescompromissado, divertido e dinâmico, tornando popular o conceito de musicalidade instrumental. Visite o site.

Passo Torto_Passo Eletrico

Passo Torto / Passo Elétrico

Neste segundo álbum, o Passo Torto parece ter brincado de desconstrução. Sai a harmonia coesa do primeiro disco para a entrada de riffs sujos, guitarras distorcidas e a individualidade predominante de cada um de seus integrantes, tudo isso viajando na poesia urbana que escancara portas, mentes e rótulos. Visite o site.

clave de clovis

Clave de Clóvis / Nelsonrodrigueando a tal da Música Popular Brasileira

Outro disco do final de 2012 entrando na lista, mas o segundo disco da Clave de Clóvis merece respeito. Falei mais sobre ele aqui. Visite o site.

talma

Talma e Gadelha / Maiô

Apesar de gostar mais do primeiro (e descompromissado) disco, Maiô é fluente em sonoridade pop dançante, brinca com a MPB, sem esquecer de fazer um bom rock´n roll divertido e ágil. Visite o Site.

cerebro

Cérebro Eletrônico / Vamos pro Quarto

O Cérebro Eletrônico não limita seu experimentalismo a críticas, letras e melodias. Boca suja em vários momentos, pode ser difícil para o ouvido despreparado, mas a miscelânea de sonoridades é ímpar. Visite o Site.

Dose Diária de Música: O Terno / 66

Trio formado por  Tim Bernardes, 22 (voz e guitarra), Victor Chaves, 22 (bateria), e Guilherme d’Almeida, 23 (baixo), O Terno lançou em 2012 seu disco de estreia, 66, com grande aclamação da crítica especializada, inclusive sendo premiado e considerado uma das melhores bandas brasileiras dos últimos tempos.

Saiba mais sobre a banda acessando o site.

Dose Diária de Música: Tom Zé / Tribunal do Feicebuqui

tribunaldofeicebuqui

Figura ímpar na música brasileira, cuja contribuição é inquestionável, Tom Zé foi envolvido em 2013 numa polêmica por ter feito a locução para um comercial da Coca-Cola. Repudiado nas redes sociais, que o acusaram de tudo quanto é coisa, ele decidiu responder à altura, lançando um EP gratuito bem humorado, recheado de trocadilhos e muita ironia, o Tribunal do Feicebuqui, contando com participações diversas, incluindo Emicida e O Terno.

Vale muito a pena conhecer, inclusive aproveita e dá uma passadinha no site do autor.