Daniel Zé / Memórias Meio Inventadas

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Aos primeiros acordes de Ostras, primeira música de  Memórias Meio Inventadas, Daniel Zé já dá o tom do que permeia seu primeiro disco solo: musicalidade, introspecção e melodias bem estruturadas. Da primeira à última faixa, há uma profusão de elementos variados, trazendo pessoalidade a cada uma das composições. Se em Mais Um Dia, ele passeia pelo rock´n roll chiclete (e um excelente chiclete), em Seu Mundo e Bonitinha ele evoca um romantismo antiquado para os padrões atuais, mas apaixonado, resultado de referências variadas trazidas ao longo da carreira.

Há sentimento em cada uma das canções, claramente uma mistura de influências de passado/presente/futuro, flertando com o contemporâneo, mas sem esquecer da modernidade sonora, uma mistura que dá certo no trabalho do cantor/guitarrista. Esse amálgama fica ainda mais evidente nas ótimas Memórias Meio Inventadas, Pró-C e Milícia, canções fortes e que refletem em suas letras o coletivo e a realidade. Além disso, nota-se que há uma cadência escolhida com muito cuidado para ordem das faixas, que fluem e se complementam. Até o projeto gráfico e as fotos parecem ter sido feitos para funcionar como uma peça só, visando expressar uma unidade visual/sonora. Este perfeccionismo e minuciosidade agregam muito valor à obra, fazendo com que o trabalho tenha algo que tem faltado muito na cena musical brasileira: personalidade e alma.

Um dos favoritos do ano, certamente.

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“Memórias Meio Inventadas”

 Daniel Zé

 Site: www.danielze.com.br

 Fanpage: www.facebook.com/danielzeoficial

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Clave de Clóvis / Nelsonrodrigueando a tal da Música Popular Brasileira

Se no excelente primeiro disco, Surbvesivo, a Clave de Clóvis trabalhou ironia e sarcasmo em suas letras, e a diversidade em suas músicas, o segundo disco, Nelsonrodrigueando a tal da Música Popular Brasileira, segue um caminho similar, mas com uma pegada mais crua, direta e sem medo.

Já nos primeiros acordes da introdução, a banda mostra que não vai poupar ninguém (“Eu comprei em Miami a minha atitude de rua / Eu comprei e Miami, eu compro a minha e a sua…”), e a primeira música, Dona Cida, é um tapa na orelha do ouvinte, rock n’roll cru e direto no meio do tímpano. E o conceito musical baseado na obra do não-compreendido Nelson Rodrigues tem início.

A banda levou muito a sério o parafrasear do título com as obras da literatura, porque o tom de lascívia e imoralidade (mal compreendidos pela maior parte das pessoas na obra de Nelson Rodrigues) estão presentes em cada acorde e palavra, assim como a inegável visão realista, popular e desgostosa da era moderna. Músicas como Frêvulo, Calma, Samba 5, Funkadão eNelsonrodrigueando exalam o autor a todo momento, mas há mais no novo trabalho da Clave de Clóvis: uma visão política e que anda meio ausente na música atual.

Não é todo dia que você ouve versos como “É então que a surpresa, a razão e a Tropa de Choque / Te colocam de volta a caverna com a promessa de morte / A justiça, a bondade, a TV e os agentes da paz / Te ensinam que o mais importante na vida é ter calma (e medo)”, ou algo tão contundente como em Contrafogos (“O acordo assassino entre fardas e gravatas / Magistrados e gavetas vem pulsando na TV / Comemoram com canetas chafurdando uns nos outros / Dividindo as mesmas putas da vitória tão maldita”). Em um momento no País em que há cada vez mais informação, mas falta atitude e interesse, músicas assim são uma forma de protesto, mesmo que abafado pela grande mídia. Mas, ainda assim, um protesto e uma demonstração de indignação.

Se eles buscaram uma forma de homenagear o incompreendido autor com o disco, acertaram em cheio. Se não, acertaram também. Não há músicas aleatórias, todas seguem um conceito préconcebido e está claro nas composições que a banda sabia o caminho que queria seguir e o que queria dizer.

E essa é a Clave de Clóvis, um menino que vê o mundo pelo buraco da fechadura, sem medo de dizer o que pensa, tampouco se preocupa com o que vão pensar dele.

PS: Os caras tem um site super bem feito e dá para adquirir o CD lá por R$ 7,00 + frete. Vale muito a pena.