Reverberre

 

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Depois de pesquisar e testar por praticamente dois anos, o projeto Reverberre tomou forma. Havia várias ideias sobre como a ferramenta deveria ser desenvolvida, mas nada muito sintetizado. Um site? Um blog? Um portal? Na verdade, o que havia era uma grande vontade de resolver uma questão que incomoda há tempos: ainda existe boa música brasileira ou o que nos resta é essa podridão que está nas rádios no momento? Eu, mesmo acostumado com a velocidade da internet, admito que raras vezes encontrei algo no meio de tanta informação. E parte do problema era esse: como separar, de forma prática, a quantidade absurda de conteúdo e organizar um pouco a ponto de tornar-se prático para o usuário?

O conceito de Apertar o Play surgiu daí, de uma simplificação. Na verdade, o start de tudo isso veio mesmo de um texto do André Barcinski, em que ele pedia pro Fabio Massari indicar umas 5 bandas que ele estivesse curtindo. Nada mais do que isso, 5 bandas. Conhecer o que realmente valia a pena porque, por mais incrível que pareça, a saturação de informação gera, também, a ausência da mesma. Não há mecanismo de pesquisa que ajude com o que estamos trabalhando no momento. No entanto, isso é parte do contexto da internet e nós é que devemos nos adaptar. Por isso, o Reverberre tornou-se um player. A simplicidade foi explorada em tudo o que foi possível: é um player, portanto aperte o play e ouça. Se não gostou, pule para a próxima. E assim vai. Se não encontrou uma banda conhecida, indique. E inscreva-se para participar de promoções. É para curtir no trabalho, no celular, na TV conectada online, em uma festa.

Além de tudo isso, o que descobri durante este tempo é que existem sites e portais com tanta qualidade de informação que nem é necessário entrar como mais um concorrente. Sites como Scream and Yell, Tenho Mais Discos que Amigos, Na Mira do Groove, Reduto do Rock, Matilha Cultural, Vitrola Verde, entre tantos outros são referência para a busca de informações sobre música brasileira, principalmente os lançamentos. Além disso, blogs com o do Ricardo Alexandre, André BarcinskiRockblogs e programas de rádio como o Rock Sem Dono, por exemplo, conseguem traçar parâmetros mais abrangentes sobre o assunto, enriquecendo e trazendo força para bandas e artistas que realmente precisam de um novo foco e, principalmente, de divulgação. O blog do Reverberre continuará existindo, mas para mostrar fotos, dicas e, eventualmente, algum texto. Eventualmente.

Enfim, espero que o Reverberre tenha bastante visibilidade, porque ele foi desenvolvido para mostrar a boa música brasileira, esquecida pelos grandes meios de comunicação. Ainda bem que os novos artistas tem a cabeça voltada para outros objetivos, sem se preocupar com as grandes vendas do CD. O que eles querem é o básico: trabalhar. E pela qualidade das músicas que encontrei nessa minha busca, muitos merecem ter seus trabalhos divulgados. Sou um fã que gostava de gravar fitas cassete com músicas que gostava e entregava aos amigos. “Cara, você tem que ouvir isso”, “É a sua cara, tem que conhecer”. E montar esse projeto é minha forma de dizer ao mundo o que ando ouvindo no momento, uma coisa de fã mesmo, que quer compartilhar com todo mundo quando ouve uma música legal. Como deixo explicito: Artista, esse player é feito para você.

Espero que gostem. Foi feito com carinho e dedicação. Tem muita música boa no Brasil, e seria muito legal se as pessoas descobrissem isso. E se o Reverberre ajudar a dar um primeiro passo através de apenas um clique, o objetivo já foi alcançado. Ainda há muito a ser feito, mas como é um projeto independente, algumas funcionalidades só estarão disponíveis nos próximos meses. Mas o start já foi dado e os resultados começam a surgir. E agradeço muito a todo muito que se envolveu e continua compartilhando no Facebook e no Twitter.

Portanto, aperta o play e Vai!

Sandro Cavallote (mar/14)

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O Rock tem dono

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A ideia era que fosse apenas uma entrevista. Uma entrevista legal, claro, afinal são 3 estudantes da ECA que tem um programa de rock na USP FM, no mínimo um papo divertido, descompromissado e com muita informação. Jota, Cauê e Juninho (eu poderia usar o nome completo de cada um, mas não estaria de acordo com o contexto rock´n roll das horas que passamos juntos) começaram o papo de forma até tímida, mas descontraída. Jota é o falante, fã de Arctic Monkeys, uma metralhadora de informação musical contemporânea, mas sem deixar de lado os clássicos, tem uma opinião muito bem definida sobre a atual condição do rock brasileiro (“há uma cena fantástica, mas ela não sabe para onde ir”), um apresentador que direciona e dialoga, sem receio de dizer o que pensa e, mais importante, sem medo de rever sua opinião em um debate. Cauê, também apresentador do Rock Sem Dono parecia meio desconfiado a princípio, mas foi se soltando aos poucos. Muse, dedicação com a faculdade, preocupação com horários, responsabilidade, o papo até enveredou para como a mídia de hoje é tacanha. Se deixar, o papo vai longe. O terceiro elemento dessa sopa toda é Juninho, o mais introvertido da trupe, mas nem por isso menos importante. Vestindo sua camiseta do The Who, desvia  quando pergunto se ele também apresenta. “Não, minha voz fica horrível e eu falo muito baixo”. Jota complementa: “ele não pode ficar perto do microfone, não tem controle. Fala o que vem na cabeça”. Saí desse papo muito curioso sobre como seria um programa com o Juninho apresentando. Pergunto para todos se houve algum caso inusitado durante os 63 programas que eles fizeram juntos. “Uma das coisas mais rock´n roll que já vimos foi durante um show promovido pelo programa em que um integrante de uma banda ficou segurando o bumbo estourado da outra. O cara lá no chão, segurando o bumbo estourado e curtindo o show! Tem coisa mais rock´n roll do que isso?”. Acho que todo o conceito de rock´n roll está expresso nesse sentimento. Rock é improviso e culhão.

rock01Diferente do que eu imaginava, preferi desenvolver esse texto baseado na experiência da gravação do programa, em pleno feriado da Consciência Negra. O velho pergunta/resposta não funciona para expressar a insanidade que foram estas quase 7 horas de gravação. Entrevista feita, gravador desligado, papo fluiu e dava mais 60 minutos fácil. Responsabilidades latentes e ajeitar o estúdio da ECA para receber a banda convidada, afinal o Rock Sem Dono faz o som ao vivo, do jeito que deve ser feito. Organização feita, indicações de bandas para o intervalo feitas por mim (The Baggios, Clave de Clóvis), tudo correndo conforme deveria. Até que Juninho, o calmo, identifica a ausência de praticamente todos os microfones do estúdio. Mais ainda: “onde estão os tripés?”. O caos está instaurado, mas esse é só começo. Os caras falam entre si (“tenho um microfone aqui, tem outro em algum outro lugar…”), verbalizam, amaldiçoam os possíveis boicotes e a filhadaputagem alheia. E o ar oscilando entre 31 e 32 graus. Condicionadamente quebrado.

– “Precisamos de 4 microfones, um pra isso, outro pra isso..”.

– “4? Precisamos de, no mínimo, 6.”

– “Ué, pra quê? Esse vai nisso, esse vai naquilo e pronto…”

– “Cara, a banda tem 7 integrantes.”

A banda convidada da noite foi a fabulosa Meia Dúzia de 3 ou 4, que faz o som de uma orquestra irônica, politizada e que tem a ousadia de rir de si própria o tempo todo, com graça e respeito. Desconheço outra banda da atualidade com esse grau de qualidade. O segundo disco, O Fim Está Próspero, é uma alegoria estapafúrdia do final dos tempos, com muita poesia, alegria, sopapos e sarcasmo atualizado. Fiquei para ver como se comportavam os 7 integrantes da banda que fez o melhor disco de 2012, ao vivo.

– “7? Cê tá de brincadeira! Fudeu”!

Desmarca. Os caras já estão na USP fazendo umas fotos. Mas não tem jeito de gravar. E se a gente fizer isso e isso e isso? Não vai dar. Dá, sim! Como gravar a bateria e, porra, tem percussão, porra. Desmarca. Caraio! E se a gente fizer assim? Desmarca, melhor. Caras, falem com a banda. Banda é pau pra toda obra. Melhor coisa é falar com os caras. Porra, caralho, que foda. Dia de merda. Desmarca. Fala com os caras. Cerveja. Desmarca porra nenhuma, vamos fazer essa merda. Fala com a banda. Olha eles chegando aí.

– “Foda-se. A gente faz com o que tem aí. Um segura o microfone do outro, a gente tem uns aqui no carro. Quem me ajuda a descarregar o carro? Vambora fazer isso aí.”

Todo mundo retirando equipamento dos carros. Sobe escada, vira aqui, vira ali. Ar condicionado quebrado, só pra lembrar.

– “Porra, sem microfone eu aguento, mas ficar nesse calor vai ser foda. E a fome? Tem algum lugar pra comer aqui perto? Tem não? Fome pra caraca. E esse pacote de bolacha vazio? Tem mais, só que cheio?”

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Isso eram umas 19h quando a banda adentrou o estúdio. Enquanto os caras desempacotam, correm Jota e Cauê para gravar a introdução. Transformam a raiva em um descaso quase juvenil, a velha teen angst verbalizada no desabafo do microfone. Sarcasmo à parte, acertam na terceira vez e parecem até mais leves. Ainda putos, mas leves. Juninho está na mesa, operando e organizando o que falta do programa. “Que dia foda” é quase um mantra. Entrevista inicial foi fácil, os caras estão juntos há um bom tempo. Tem um processo criativo interessantíssimo de montar uma base e todos os integrantes vão contribuindo online, via skype ou qualquer coisa que o valha. “É um processo quase kármico”. “E as participações especiais desse novo disco? De Tom Zé, passando por André Abujamra, chegando até no Arrigo Barnabé?”. “O mérito é da cara de pau da gente. De mais ninguém”. Rock´n roll puro e sem intermediários. Hora de tocar. E dá-lhe “O Ser Humano é muito bobo”. Lero-Lero.

A banda participa das soluções. “Já estamos aqui, vamos fazer direito”. Um aqui, outro ali. Junta todo mundo nesse canto. Pronto pra primeira? Testa esses mics aí. E a fome batendo forte. Primeira música foi na terceira tentativa. Ponto pros Sem Dono. Se revezam na mesa e nos cabos dos microfones. Acerta ali, erra ali. “Quero só que esse dia acabe”. Esse foi o Jota falando, mas era o pensamento de todos ali dentro daquele inferno em forma de estúdio.

Com a banda no pique, vamos pra segunda. Outro microfone com problema, troca o 1, troca o 2, muda o 3. Testa. Acerta. Erra. Revezamento 3 por 3 no computador, no estúdio, na troca dos cabos. Chegou num ponto em que não dava mais para controlar qual cabo estava ligado em qual número.”Funcionou!Tá em qual número? Foda-se e liga essa merda pra gente gravar essa porra”. “Qual vai agora?”. “Deus me livre e guarde de você”. “E de nós, os desorganizados do Rock Sem Dono” foi a piada interna. Essa virou até vídeo. Isso eram quase 23h.  A terceira, “Caguei pra você”, mostra toda a dimensão da banda: estrutura, coesão e musicalidade impecável. Sobrou até espaço para mais uma: “Esquecimento Global”.  E tudo isso com uma fome gigantesca. Já passava da meia noite. Despedidas rápidas. Gente espetacular.

O programa foi ao ar com uma semana de atraso por um erro de programação da USP (obviamente a epopeia trágica só seria coroada com um erro desse porte, não é?) e pode ser ouvido aqui. Para mim, o que restou foi uma das experiências mais gratificantes da minha vida. Por mais exagerado que possa parecer, foram algumas horas realmente insanas para estes 3 caras, Jota, Cauê e Juninho, transpondo cada obstáculo com criatividade, independência e muita fúria. Mas o resultado de toda essa catarse não podia ser melhor.

E se isso não for rock´n roll, eu não sei o que é.

 

Ouça a entrevista com Meia Dúzia de 3 ou 4 clicando aqui.

O Rock Sem Dono está na programação da Rádio USP (93,7 MHz) todo domingo, às 18h.

Clipe: Camarones Orquestra Guitarrística / Bronx

Acabou de ser postado na fanpage da banda o clipe da música Bronx, do álbum Espionagem Industrial, de 2012. Mesmo não sendo uma música do excelente disco novo, O curioso caso da música invisível, vale a pena por ser uma animação estruturada e com conceito, coisa difícil de ser ver na atualidade. Clipes desse tipo precisam ser respeitados, compartilhados e lembrados.

Conheça e faça downloads dos discos da banda clicando aqui.

The Baggios / Sina

Fonte: divulgação

Fonte: divulgação

 

O duo sergipano The Baggios sabe muito bem o que quer fazer da vida. Em seu segundo trabalho, Sina, a banda continua servindo-se do que mais gosta, do blues e do rock clássico, adicionando pitadas de elementos diferentes, e essa é a grande sacada do conceito da banda: a de pegar o rock e introduzir uma personalidade tipicamente brasileira.

 

Formada em 2004, com Gabriel Carvalho (Bateria) e  Júlio Andrade (guitarra e voz), a banda já tem certa bagagem no tenso mercado nacional. Depois de 3 EPs, lançaram seu primeiro álbum homônimo em 2011e receberam boas críticas na época, inclusive sendo indicados para alguns prêmios e festivais. Apesar de um bom disco de estreia, há evolução nítida e segura neste novo trabalho, que foi desenvolvido para agradar quem gosta do classic rock, mas retumbando criatividade no uso da brasilidade. Você percebe que há uma diferença já nos primeiros acordes de Afro, que abre o disco. Guitarras fortes, bateria poderosa e o vocal sotaqueado nos levam a uma viagem pelo que há de melhor na representação do rock. Elementos consagrados são utilizados não como fonte de atenção, mas como complementação para o que a música da banda é e, acreditem, a banda tem plena certeza do que ela é, e essa construção da personalidade está em toda a obra. Hendrix, Led Zepelin, Creedence, Raul Seixas estão todos lá, mas fazem parte do contexto, não são o foco principal. A individualidade da banda está expressa em todo o trabalho, do projeto gráfico do site até as letras em português que, aliás, são muito bem construídas e são parte imprescindível da naturalidade da banda. Há espaço até para xote, mas sem gratuidade, em Esturra Leão, um tapão na orelha, com metais enérgicos e musicalidade à flor da pele.

 

baggiosEm uma época em que o rock está buscando uma redefinição, o The Baggios buscam uma reconstrução de um tema desgastado e maltratado. Saem-se bem em todos os aspectos, excepcionalmente porque respeitam o passado, mas observam o futuro com um olhar sóbrio, criativo e verde/amarelo.

 

Site/download: www.thebaggios.com.br 

 

Jorge Cabeleira / Download de Alugam-se Asas para o Carnaval

Fonte: Divulgação

Fonte: Divulgação

A fanpage oficial da excelente Jorge Cabeleira e o Dia que Seremos Todos Inúteis discretamente colocou uma imagem avisando que seu segundo disco, (quase) desconhecido Alugam-Se Asas para o Carnaval está disponível para download via Soundcloud.

Eu ouvi o primeiro disco desses caras até estragar o CD. Jorge Cabeleira e o Dia que Seremos Inúteis é um dos grandes novos clássicos nacionais e que teve até uma boa divulgação via MTV com o pout-pourri de O Cheiro da Carolina e O Xote das Meninas, de Luiz Gonzaga. Há menos de um ano os caras voltaram à ativa e parece que os dois primeiros CDs estão sendo remasterizados e uma coletânea que virá com duas músicas inéditas.

Gosto demais desse segundo disco e acho que ele é tão bom quanto o de estreia. Aproveitem e ouçam que vale muito a pena. Curtam lá no Facebook e acompanhem os trabalhos dos caras, porque o pessoal da banda andou mexendo no conteúdo, o que mostra que será um excelente canal de divulgação.

Pra quem não lembra, segue abaixo o videoclipe que fez muita gente bater cabeça nos anos 90.

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Quem quer votar?

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Ano que vem tem eleições para presidente. Fiquei tentando lembrar quando e para quem foi meu primeiro voto. Nem imagino. Mas fiquei com o assunto na cabeça, matutando se esse meu interesse por política começou em algum momento. Na verdade, eu sempre foi um insatisfeito com essas coisas. Crescer sem os benefícios financeiros advindos de um pai rico não foi fácil, apesar de me fazer virar uma criança criativa e não conformada. Acho que foi no final dos anos 80 em que o rock’n roll nacional estava bombando, e tinha gente brincando, tinha gente namorando, mas também tinha gente batendo.

No mesmo ano de lançamento do hegemônico “Que país é este?”, 1987, eu comprei um disco que ninguém esperava. Pouco alarde foi feito, ainda mais quando todas as rádios gritavam a voz de Renato Russo, bradando, do Amazonas ao Araguaia, na baixada Fluminense, no Mato Grosso, nas Gerais, mesmo estando tudo em paz no Nordeste, sua visão do governo brasileiro, ainda mais estando tão próximo da sede.

plebe-rude-versoEu nem imagino como esse disco se saiu em vendagens, sei que o do Legião, segundo o site musiconline, vendeu mais de um milhão de discos desde que saiu. Também, o disco tem uma força avassaladora e, ainda mais, tinha que suceder “Dois”, considerado por muitos fãs (inclusive eu) como “o” disco do Legião. Na verdade, muitas bandas dos anos 80 tinham o culhão de bater de frente com o governo, seja diretamente ou indiretamente. Além disso, haviam os que tinham um som e atitude bem definido, os que só queriam fazer um bom som, os que queriam ganhar dinheiro, e havia a Plebe Rude.

Sou fã da Plebe por causa do segundo disco. O primeiro, “O Concreto Já Rachou” é legal, tá, tudo bem. Mas era muito inconsistente em peso. Havia coisa espetaculares como “Brasília”, como havia bobeiras legais (“Sexo e caratê”) e a que eu não aguento mais ouvir, mas que funcionou bem para apresentar a banda. No primeiro disco, a Plebe mostrava que tinha algo a dizer, mas não exatamente o quê. Em “Nunca Fomos Tão Brasileiros” tudo ficou claro. A merda estava sendo jogada no ventilador de uma forma poética, firme e ousada, evidenciando que era um lançamento fora de seu tempo.

“Bravo Mundo Novo” é de um preciosismo sinistro. Abre o disco com força e conteúdo. “Bravo mundo novo está nascendo e pelo visto, vai te surpreender um dia… “. As vozes de Phillipe Seabra e Jander Billaphra se alternam num crescendo visceral, com belos violinos ao fundo e a bateria de Gutje aliada aos acordes de André X. Um desbunde de abertura para um disco.

O que se segue é uma ode às novas tecnologias. Com “Nova Era Techno” havia um prenúncio de como ficaríamos para trás em relação às máquinas, e posteriormente dependentes delas, no dia a dia e na vida pessoal. “48” é uma das minhas favoritas, também prevendo o abuso das nossas horas extras e como um final de semana não é o suficiente, com uma letra simples, direta e básica. “Não tema”, explora, mais uma vez, o momento de sobriedade da banda, antagonizando o modus operandi das nossas vidas em relação ao que tememos fazer (“Não tenha medo de se divertir / não tenha medo de falar de sorrir…/ não fique em casa vendo o Fantástico…”). “Censura”, se não me engano, foi a tentativa de se fazer uma segunda música de trabalho para vender o disco, mas com a própria tesourando a torto e a direito, evidentemente as rádios não deram a devida atenção. “Nada” é tão bem construída musicalmente que fica difícil imaginar sendo tocada no rádio no final dos anos 80, não tinha nada a ver com o que a maior parte da moçada estava afim de ouvir. A letra é forte e coloca a gente pra pensar, infelizmente, mais uma vez, à frente de sua época. Os primeiros acordes de “Nunca fomos tão brasileiros” são puro anos 80, mas quando a voz de Jander entra em cena, o discurso é tão forte e introspectivo que só mentes um pouco mais esclarecidas podem acompanhar, mas a música é tão bem estruturada que fica difícil não refletir um pouco, e é exatamente aí que eu acredito ter sido o ponto positivo para a Plebe, mas negativo para o público. Apesar do terceiro disco do Legião ter a pegada “chutar o balde”, Renato Russo contava a história cativante de João de Santo Cristo, fazia a moçada dançar e desligar o cérebro em “Química”, e botava o povo pra se beijar em “Angra dos Reis”. Havia uma cadência comercial ali. “Nunca Fomos Tão Brasileiros” não tem essa intenção. É um chute no saco. E pronto. A música de trabalho escolhida foi “A ida”, que começa com “Quem tem a razão / um burocrata ou um padre com o evangelho em mãos…”. A gravadora até que tentou, mas com um material desses em mãos, fica difícil fazer Revoluções por Minuto. No terceiro ato do disco, “Consumo” escarnecia a própria gravadora e dizia que a Plebe não era pré-fabricada. Era praticamente um atestado de “não nos comprem como compram o Paulo Ricardo”. Na sequência, “Códigos”, uma música tão forte e sensata, praticamente fechava um disco perfeito, com arranjos sensacionais e letras ferinas, antecipando novamente, refletindo George Orwell em cada uma das linhas. “Mentiras por enquanto” fecha o disco, fazendo o ouvinte entender que a Plebe tinha algo muito forte a dizer, mas que talvez não fosse a época certa (“Você sabe que não estou aqui, para te converter / Você sabe que não estou aqui para rezar para infiéis”…).

E assim termina um disco preciso, inabalável, e que, como pouquíssimos nos anos 80, com algo centrado e com algo a dizer. Talvez a Plebe não tenha tido o grande sucesso que esperava, ou talvez não quiseram perder sua identidade, isso não dá pra saber. O fato é que em 1987, eu ouvi muito mais “Nunca Fomos Tão Brasileiros” do que “Que País é Este?” não só pelo seu conteúdo ou pelo sensacional projeto gráfico (mais uma vez, para a época, inovador), mas sim porque aqueles 4 caras tinham algo muito forte a dizer pra mim, aquele garoto de 13 anos. E se algum disco teve tanta influência no meu modo de ser e pensar sobre política, governo, direitos e deveres, esse disco foi o segundo do Plebe Rude.

E se os caras foram tão ousados e visionários, a ponto de convencer uma gravadora a fazer um disco desses, eles merecem todo o meu respeito. O terceiro disco não virou. A Plebe não virou do jeito que era esperado. Mas que deixaram uma marca forte, uma cicatriz no rock’n roll nacional, ah, isso deixaram.

 

P.S. O disco, na verdade, termina com uma versão de “Proteção”, sucessão do primeiro disco. Aposto que isso foi coisa da gravadora, que temia que o link entre o disco e a banda não fosse acontecer e prevendo um possível mau investimento. Totalmente desnecessária, por isso, nem a credito.

Vivendo e Não Aprendendo

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Exatos 10 anos depois, uma nova edição de Dias de Luta – O Rock e o Brasil dos Anos 80, de Ricardo Alexandre,  surge em minha vida. Uma década atrás, esse livro reescreveu boa parte de como eu via o movimento musical que permeou boa parte da minha adolescência e me fez ter uma curiosidade sobre como chegamos até aquele momento. Afinal, havia Plebe Rude, mas também havia RPM e, mesmo parecendo similares, estão a anos luz de distância em termos de trabalho e fundamentação, mesmo que o grande público não conseguisse enxergar. E não havia ninguém que ainda houvesse conseguido sintetizar essa dicotomia em palavras, explicando passo a passo essas nuances durante a ressaca pós anos 70. Dias de Luta foi um marco na organização das ideias, casos e histórias de uma geração que mudou a cara do rock brasileiro, para o bem ou para o mal. E uma grande sacada foi dar os devidos destaques aos movimentos não agregados pela grande mídia, como o punk e o rap, que tiveram seus respectivos valores respeitados na obra.

O livro é farto em informação, um registro definitivo da época. Nele você vai encontrar fatos detalhados de como foi a mudança de trajetória dos Tropicalistas para o escracho dos primórdios do rock brasileiro, e como a indústria usou isso em seu favor, ganhando muito dinheiro e sugando o que dava do movimento. Vai ter uma visão geral de bandas em início de carreira, como o Titãs, Paralamas, Legião, Plebe Rude, entre muitos, as adversidades, parcerias e como se comportou uma geração que, além de uma transição musical, enfrentava uma mudança política e econômica, e como isso repercutiu no conteúdo das composições. Como Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, entre outras localidades, tinham suas próprias peculiaridades e como isso convergiu para a exaustão completa do segmento. Qual a importância do movimento punk de São Paulo, os “jabás” e os programas de televisão, como artistas driblaram a censura da época e usavam o sarcasmo em suas letras, bandas que foram estruturadas e planejadas conforme padrões internacionais, os incompreendidos e aqueles que não quiseram ceder ao sistema. Tudo isso somado a vários depoimentos, casos, influências e fotos da época, mostrando o ápice da cultura pop brasileira.

Obrigatório não apenas para quem quer conhecer um pouco mais da música brasileira, mas também para quem quer conhecer um ponto de vista histórico sobre o sofrível momento do Brasil.

PS: A nova edição atualizada incorpora muitas informações novas, citando mudanças e updates até 2012 (acredito que a informação mais recente é a volta da 89 FM) e artistas que faleceram. Além disso, há um apêndice com as 50 melhores músicas dos anos 80 selecionadas pelo autor. Há também um ótimo Video Release online.

Agradecimentos especiais a Alan Nisiyamamoto por ter me emprestado o livro na década passada, e para Rafa e Tati, que me agraciaram com um presente fantástico.

___________________!

img-1014066-dias-de-lutaDias de Luta – O Rock e o Brasil dos Anos 80

Ricardo Alexandre

Editora Arquipélago / 440 pág.

Info: http://www.arquipelagoeditorial.com.br/diasdeluta/o-livro/