Maracatu de uma tonelada

Clube de Campo de Mogi das Cruzes. Meados dos anos 90. Eu tinha, sei lá, uns 23 anos. Foi a primeira vez que vi o Maracatu em todo seu esplendor. Seu que não se compara com o original, lá do Norte, mas me deixou perplexo, e praticamente todo mundo que foi lá só pra ver o Raimundos. Chico Science era a abertura. E se formos levar em consideração o termo “show” como no Aurélio, fez o inusitado num evento semi-vazio com jovens que foram lá pra ouvir “Puteiro em João Pessoa” e “Selim”.E desde esse dia, eu era um admirador do caranguejos cibernéticos. Fui comprar o CD (sim, antes se comprava CD) e dava pra sentir até no encarte que algo diferente estava acontecendo. O conceito do “chamagnathus grulatus sapiens” ou, simplesmente, “caranguejos com cérebro” era curioso demais. O encarte explica tudo. Era “Da Lama ao Caos”, um disco visceral, que falava de mangueboys, manguegirls, cultura pop, quadrinhos e Bezerra da Silva. E o som! Ah, o som! Tudo ali funciona. “Risoflora” é uma das músicas mais bonitas que já ouvi, “Da Lama ao Caos” é de um peso extraordinário e “Rios, Pontes e Overdrives” canta a tragédia da modernidade. Caracas, isso foi em 1994 e hoje, mais de dez anos depois, sem o próprio Chico liderando, ainda sou um defensor ardoroso da Nação.

“Afrociberdelia”, o segundo disco, é um marco por dois motivos: primeiro, enfiou guela abaixo uma parte da raiz da nossa música, raiz esta que parecia azeda mas que parece fazer um bem danado pro estômago. A segunda foi que o disco vendeu igual água numa época em que haviam opções diferenciadas, mas nada parecido com a Nação. Ou seja, ou a MTV estava realmente fazendo seu papel de catalisador e dispersor de cultura musical, ou as gravadoras estavam percebendo que ali havia um segmento em que poderiam ganhar dinheiro. Talvez as duas coisas. CSNZ tinha dois discos fundamentais para conhecer o Brasil musical. E Chico se foi. No seu auge, como muitos.

nacao02Muito foi dito sobre a morte de seu mentor, e bastante já foi dito sobre a continuidade do projeto Nação Zumbi. Um recomeço pacato, soturno até. Mas para quem vivia à sombra midiática de Francisco de Assis França faz todo o sentido não tomar o bonde, mas ir à pé e bem devagar. Afinal, a banda havia em pouco tempo se tornado não só o estandarte do pretenso Movimento Mangue Beat, que eclodiu numa época em que a MTV adorava chafurdar na criatividade alheia do Brasil. Depois de um tempo, o Mundo Livre S.A. até tentou, mas faltava algo. Possivelmente uma presença. No palco e no conceito. Eu particularmente olhava com melhores olhos para outros, como Jorge Cabeleira e o Dia em que Seremos Todos Inúteis (nome de banda do caralho!) e Sheik Tosado. Mas fazia o possível para entender o que seria do bando de Chico Science. Eu havia visto e entendido: Chico era um elemento, talvez o mais aparente, mas tinha algo naqueles caras. Algo encubado. Sabe aquele garotinho que só fica observando o jogo, quieto, no seu canto e, ao ser chamado para jogar porque não havia mais substituto, marca aquele golaço? Era o que eu via na Nação.

“CSNZ”, o “disco homenagem” chegou duplo, com um CD com 11 músicas ao vivo e um segundo com Remixes. O primeiro é, obviamente, um registro obrigatório para fãs, com palhas de Jorge Ben Jor e Planet Hemp. O segundo totalmente dispensável para o ouvinte, mas talvez para os amigos da banda, não. São Djs que fizeram suas próprias versões de algumas músicas. Nada a ver com o som da banda em si. Uma delas tem o nome de “Chico – Death of a Rockstar”, por aí você já pode ter uma idéia da coisa. Enfim, a Nação deve ter tido um bom motivo pra fazer isso. Entretanto, a primeira música do disco de verdade era uma grande surpresa: “Malungo” tinha a batida da Nação, forte, alegre, expressiva, aliada a alguns companheiros que provavelmente vieram dar uma força para que a banda continuasse. Na música repousava o frevo-cibernético com as vozes de Jorge Ben Jor, Fred 04 (vocalista do Mundo Livre S.A.) e o Rappa Falcão. Sonzera pura. A batida tava ali. Mas e a nova voz da Nação?

Jorge dü Peixe assumiu o manto e a dor de cabeça. Teve que aguentar críticas pra caramba, como “não tem voz suficiente e nem presença de palco”. Chico era um ícone, sabemos disso. O bom é que a própria banda tinha plena consciência também e voltaram toda a artilharia sonora para a música e para a união do grupo. Deu mais certo do que esperavam. “Rádio S.amb.A.” pode não ter a força de “Afrociberdelia”, mas foi um segundo passo que definiu o que seria a Nação futuramente: “um passo à frente, e você já não está no mesmo lugar”.

“Nação Zumbi”, o disco, consolidou a formação e mostrou que a receita estava certa. Além disso, um cuidado com os videoclipes (sempre conceituados e graficamente diferenciados) fez com que a banda começasse a ser vista fora da esfera nacional. O DVD “Propagando” é um dos registros dessa fase. Um documentário-show imperdível para quem gosta da Nação e uma pequena aula de bom gosto estético. A câmera passeia pelo palco como um integrante, uma presença quase espiritual no meio daquela batida única, caótica. Os efeitos usados para transição entre músicas são bem empregados, tornando-o não apenas um show, mas sim uma apreciação artística. O DVD na verdade é um registro da evolução da banda, de sua alma sonora, e de como Chico ainda está presente, mas que a Nação tem uma personalidade própria agora. A direção afiada de Paulo Prestes Franco caiu como uma luva, pois é despretencioso, e é essa a grande sacada, pois dissecar a Nação não é tarefa fácil. Literalmente, só vendo pra crer.

Consolidada, a banda ainda lançou os sensacionais “Futura” e “Fome de Tudo”, ambos com canções fortes, batidas certeiras e a guitarra gritante de Lúcio Maia. Mas a Nação não é cada um dos integrantes. A Nação é uma coisa mais forte, reverberante. A matéria-prima está além do visual. É um conjunto de sentidos físicos, emocionais e psicológicos.

E como diz o cartaz visto no público do DVD: “Chico Science está orgulhoso”.

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