Quem quer votar?

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Ano que vem tem eleições para presidente. Fiquei tentando lembrar quando e para quem foi meu primeiro voto. Nem imagino. Mas fiquei com o assunto na cabeça, matutando se esse meu interesse por política começou em algum momento. Na verdade, eu sempre foi um insatisfeito com essas coisas. Crescer sem os benefícios financeiros advindos de um pai rico não foi fácil, apesar de me fazer virar uma criança criativa e não conformada. Acho que foi no final dos anos 80 em que o rock’n roll nacional estava bombando, e tinha gente brincando, tinha gente namorando, mas também tinha gente batendo.

No mesmo ano de lançamento do hegemônico “Que país é este?”, 1987, eu comprei um disco que ninguém esperava. Pouco alarde foi feito, ainda mais quando todas as rádios gritavam a voz de Renato Russo, bradando, do Amazonas ao Araguaia, na baixada Fluminense, no Mato Grosso, nas Gerais, mesmo estando tudo em paz no Nordeste, sua visão do governo brasileiro, ainda mais estando tão próximo da sede.

plebe-rude-versoEu nem imagino como esse disco se saiu em vendagens, sei que o do Legião, segundo o site musiconline, vendeu mais de um milhão de discos desde que saiu. Também, o disco tem uma força avassaladora e, ainda mais, tinha que suceder “Dois”, considerado por muitos fãs (inclusive eu) como “o” disco do Legião. Na verdade, muitas bandas dos anos 80 tinham o culhão de bater de frente com o governo, seja diretamente ou indiretamente. Além disso, haviam os que tinham um som e atitude bem definido, os que só queriam fazer um bom som, os que queriam ganhar dinheiro, e havia a Plebe Rude.

Sou fã da Plebe por causa do segundo disco. O primeiro, “O Concreto Já Rachou” é legal, tá, tudo bem. Mas era muito inconsistente em peso. Havia coisa espetaculares como “Brasília”, como havia bobeiras legais (“Sexo e caratê”) e a que eu não aguento mais ouvir, mas que funcionou bem para apresentar a banda. No primeiro disco, a Plebe mostrava que tinha algo a dizer, mas não exatamente o quê. Em “Nunca Fomos Tão Brasileiros” tudo ficou claro. A merda estava sendo jogada no ventilador de uma forma poética, firme e ousada, evidenciando que era um lançamento fora de seu tempo.

“Bravo Mundo Novo” é de um preciosismo sinistro. Abre o disco com força e conteúdo. “Bravo mundo novo está nascendo e pelo visto, vai te surpreender um dia… “. As vozes de Phillipe Seabra e Jander Billaphra se alternam num crescendo visceral, com belos violinos ao fundo e a bateria de Gutje aliada aos acordes de André X. Um desbunde de abertura para um disco.

O que se segue é uma ode às novas tecnologias. Com “Nova Era Techno” havia um prenúncio de como ficaríamos para trás em relação às máquinas, e posteriormente dependentes delas, no dia a dia e na vida pessoal. “48” é uma das minhas favoritas, também prevendo o abuso das nossas horas extras e como um final de semana não é o suficiente, com uma letra simples, direta e básica. “Não tema”, explora, mais uma vez, o momento de sobriedade da banda, antagonizando o modus operandi das nossas vidas em relação ao que tememos fazer (“Não tenha medo de se divertir / não tenha medo de falar de sorrir…/ não fique em casa vendo o Fantástico…”). “Censura”, se não me engano, foi a tentativa de se fazer uma segunda música de trabalho para vender o disco, mas com a própria tesourando a torto e a direito, evidentemente as rádios não deram a devida atenção. “Nada” é tão bem construída musicalmente que fica difícil imaginar sendo tocada no rádio no final dos anos 80, não tinha nada a ver com o que a maior parte da moçada estava afim de ouvir. A letra é forte e coloca a gente pra pensar, infelizmente, mais uma vez, à frente de sua época. Os primeiros acordes de “Nunca fomos tão brasileiros” são puro anos 80, mas quando a voz de Jander entra em cena, o discurso é tão forte e introspectivo que só mentes um pouco mais esclarecidas podem acompanhar, mas a música é tão bem estruturada que fica difícil não refletir um pouco, e é exatamente aí que eu acredito ter sido o ponto positivo para a Plebe, mas negativo para o público. Apesar do terceiro disco do Legião ter a pegada “chutar o balde”, Renato Russo contava a história cativante de João de Santo Cristo, fazia a moçada dançar e desligar o cérebro em “Química”, e botava o povo pra se beijar em “Angra dos Reis”. Havia uma cadência comercial ali. “Nunca Fomos Tão Brasileiros” não tem essa intenção. É um chute no saco. E pronto. A música de trabalho escolhida foi “A ida”, que começa com “Quem tem a razão / um burocrata ou um padre com o evangelho em mãos…”. A gravadora até que tentou, mas com um material desses em mãos, fica difícil fazer Revoluções por Minuto. No terceiro ato do disco, “Consumo” escarnecia a própria gravadora e dizia que a Plebe não era pré-fabricada. Era praticamente um atestado de “não nos comprem como compram o Paulo Ricardo”. Na sequência, “Códigos”, uma música tão forte e sensata, praticamente fechava um disco perfeito, com arranjos sensacionais e letras ferinas, antecipando novamente, refletindo George Orwell em cada uma das linhas. “Mentiras por enquanto” fecha o disco, fazendo o ouvinte entender que a Plebe tinha algo muito forte a dizer, mas que talvez não fosse a época certa (“Você sabe que não estou aqui, para te converter / Você sabe que não estou aqui para rezar para infiéis”…).

E assim termina um disco preciso, inabalável, e que, como pouquíssimos nos anos 80, com algo centrado e com algo a dizer. Talvez a Plebe não tenha tido o grande sucesso que esperava, ou talvez não quiseram perder sua identidade, isso não dá pra saber. O fato é que em 1987, eu ouvi muito mais “Nunca Fomos Tão Brasileiros” do que “Que País é Este?” não só pelo seu conteúdo ou pelo sensacional projeto gráfico (mais uma vez, para a época, inovador), mas sim porque aqueles 4 caras tinham algo muito forte a dizer pra mim, aquele garoto de 13 anos. E se algum disco teve tanta influência no meu modo de ser e pensar sobre política, governo, direitos e deveres, esse disco foi o segundo do Plebe Rude.

E se os caras foram tão ousados e visionários, a ponto de convencer uma gravadora a fazer um disco desses, eles merecem todo o meu respeito. O terceiro disco não virou. A Plebe não virou do jeito que era esperado. Mas que deixaram uma marca forte, uma cicatriz no rock’n roll nacional, ah, isso deixaram.

 

P.S. O disco, na verdade, termina com uma versão de “Proteção”, sucessão do primeiro disco. Aposto que isso foi coisa da gravadora, que temia que o link entre o disco e a banda não fosse acontecer e prevendo um possível mau investimento. Totalmente desnecessária, por isso, nem a credito.

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Vivendo e Não Aprendendo

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Exatos 10 anos depois, uma nova edição de Dias de Luta – O Rock e o Brasil dos Anos 80, de Ricardo Alexandre,  surge em minha vida. Uma década atrás, esse livro reescreveu boa parte de como eu via o movimento musical que permeou boa parte da minha adolescência e me fez ter uma curiosidade sobre como chegamos até aquele momento. Afinal, havia Plebe Rude, mas também havia RPM e, mesmo parecendo similares, estão a anos luz de distância em termos de trabalho e fundamentação, mesmo que o grande público não conseguisse enxergar. E não havia ninguém que ainda houvesse conseguido sintetizar essa dicotomia em palavras, explicando passo a passo essas nuances durante a ressaca pós anos 70. Dias de Luta foi um marco na organização das ideias, casos e histórias de uma geração que mudou a cara do rock brasileiro, para o bem ou para o mal. E uma grande sacada foi dar os devidos destaques aos movimentos não agregados pela grande mídia, como o punk e o rap, que tiveram seus respectivos valores respeitados na obra.

O livro é farto em informação, um registro definitivo da época. Nele você vai encontrar fatos detalhados de como foi a mudança de trajetória dos Tropicalistas para o escracho dos primórdios do rock brasileiro, e como a indústria usou isso em seu favor, ganhando muito dinheiro e sugando o que dava do movimento. Vai ter uma visão geral de bandas em início de carreira, como o Titãs, Paralamas, Legião, Plebe Rude, entre muitos, as adversidades, parcerias e como se comportou uma geração que, além de uma transição musical, enfrentava uma mudança política e econômica, e como isso repercutiu no conteúdo das composições. Como Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, entre outras localidades, tinham suas próprias peculiaridades e como isso convergiu para a exaustão completa do segmento. Qual a importância do movimento punk de São Paulo, os “jabás” e os programas de televisão, como artistas driblaram a censura da época e usavam o sarcasmo em suas letras, bandas que foram estruturadas e planejadas conforme padrões internacionais, os incompreendidos e aqueles que não quiseram ceder ao sistema. Tudo isso somado a vários depoimentos, casos, influências e fotos da época, mostrando o ápice da cultura pop brasileira.

Obrigatório não apenas para quem quer conhecer um pouco mais da música brasileira, mas também para quem quer conhecer um ponto de vista histórico sobre o sofrível momento do Brasil.

PS: A nova edição atualizada incorpora muitas informações novas, citando mudanças e updates até 2012 (acredito que a informação mais recente é a volta da 89 FM) e artistas que faleceram. Além disso, há um apêndice com as 50 melhores músicas dos anos 80 selecionadas pelo autor. Há também um ótimo Video Release online.

Agradecimentos especiais a Alan Nisiyamamoto por ter me emprestado o livro na década passada, e para Rafa e Tati, que me agraciaram com um presente fantástico.

___________________!

img-1014066-dias-de-lutaDias de Luta – O Rock e o Brasil dos Anos 80

Ricardo Alexandre

Editora Arquipélago / 440 pág.

Info: http://www.arquipelagoeditorial.com.br/diasdeluta/o-livro/